Assunto: As missivas
Era na Biblioteca que se observavam, de longe. Com a regularidade marcada pela chegada dele à pequena cidade de interior. Ele era um ser enigmático, pensava Ela, quase saído de um dos livros que requisitava e depois devorava na noite. Sempre vestido de azul-escuro ou cinzento Ele chegava sem aviso, quando já a sua figura se estava a diluir na esperança dela, para depois sumir em prazos longos e sem regras. Durante anos que Ela não sabia contar.
Ela sentava-se, frente à janela e observava-o, muitas vezes em silêncio e completamente invisível aos seus olhos. Via-o chegar, entregar-se aos livros que o pareciam deleitar e Ela, ali, na sombra, vivendo romances de cordel onde começou a pô-lo como personagem principal. E a criar-lhe formas de vida.
Um dia pegou num livro de Eça que Ele tinha pousado, e num impulso, deixou-lhe uma missiva curta, cheia de humor. No dia seguinte tinha a resposta, sintética e refinada, com frases de um soneto de Camões. Foram passando todos os clássicos portugueses, de uma mão para outras mãos, em missiva que era lida na vez seguinte à ida à Biblioteca.
Nunca se falaram. Ela conjecturava e fazia-o vendedor de sonhos, diplomata em exílio, enviado divino. Ele mantinha a distância do mistério sem largar a capa das suposições, alimentando a fantasia dela. Mas Ela intuía, nas missivas contraditórias e nos gestos esporádicos, segredos. Adivinhava, nas linhas largadas em obras do passado, enganos. E os livros, seculares guardadores de mensagens, não deixavam nem uma pista.
E um dia Ele desapareceu, como tinha chegado. E Ela foi apagando da memória o significado das palavras.
Até hoje….
Era na Biblioteca que se observavam, de longe. Com a regularidade marcada pela chegada dele à pequena cidade de interior. Ele era um ser enigmático, pensava Ela, quase saído de um dos livros que requisitava e depois devorava na noite. Sempre vestido de azul-escuro ou cinzento Ele chegava sem aviso, quando já a sua figura se estava a diluir na esperança dela, para depois sumir em prazos longos e sem regras. Durante anos que Ela não sabia contar.
Ela sentava-se, frente à janela e observava-o, muitas vezes em silêncio e completamente invisível aos seus olhos. Via-o chegar, entregar-se aos livros que o pareciam deleitar e Ela, ali, na sombra, vivendo romances de cordel onde começou a pô-lo como personagem principal. E a criar-lhe formas de vida.
Um dia pegou num livro de Eça que Ele tinha pousado, e num impulso, deixou-lhe uma missiva curta, cheia de humor. No dia seguinte tinha a resposta, sintética e refinada, com frases de um soneto de Camões. Foram passando todos os clássicos portugueses, de uma mão para outras mãos, em missiva que era lida na vez seguinte à ida à Biblioteca.
Nunca se falaram. Ela conjecturava e fazia-o vendedor de sonhos, diplomata em exílio, enviado divino. Ele mantinha a distância do mistério sem largar a capa das suposições, alimentando a fantasia dela. Mas Ela intuía, nas missivas contraditórias e nos gestos esporádicos, segredos. Adivinhava, nas linhas largadas em obras do passado, enganos. E os livros, seculares guardadores de mensagens, não deixavam nem uma pista.
E um dia Ele desapareceu, como tinha chegado. E Ela foi apagando da memória o significado das palavras.
Até hoje….

1 Comments:
At Qui Jan 12, 12:05:00 AM 2006,
Ofegante said…
Que não se apague da memória o significado das palavras, pois elas são vazias sem aquilo que significam. As palavras servem as ideias, e não o contrário. É forçoso continuar a encontrar nas palavras a significância do seu significado.
P.S.: - Já viste o teu horóscopo para este ano?
M.V.
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